Um breve resumo sobre como começou o carnaval de Belo Horizonte

Ainda hoje acho estranho falar sobre “carnaval em BH”, afinal nasci aqui há quase 32 anos e até 5 anos atrás a cidade ficava extremamente vazia neste feriado. Sério, parece que 80% dos moradores viajavam e ninguém caía na besteira de vir pra cá já que nada abria, nada funcionava. Como então, em tão pouco tempo, a situação mudou completamente? Como, em apenas 5 anos, BH deixou de ser uma cidade morta no carnaval e se transformou em sede de um dos maiores carnavais do Brasil, levando mais de 1 milhão de pessoas às ruas no ano passado?
Como o carnaval em BH começou
 
Foi assim: era uma vez uma praça que fica no centro da cidade, a Praça da Estação. Apesar da importância do lugar (foi por lá que chegaram a matéria-prima utilizada na construção da cidade, lá em 1890 e poucos), a praça estava abandonada, feia, suja e com muitos moradores de rua. Lá pelos anos de 2003, depois de muitos pedidos da população, a prefeitura investiu uma grana preta e fez uma mega reforma. Tirou canteiro central, tirou árvores, recuperou a praça da frente e instalou um museu de Artes e Ofícios. Um dos objetivos era criar uma “infra-estrutura adequada para manifestações culturais com grande aglomeração de pessoas” (informação retirada do Diário Oficial do Município – DOM)”. 
 
Aí lá em 2010 me aparece um prefeito recém eleito proibindo eventos de qualquer natureza na praça. Segundo ele, para manter a segurança e preservar o patrimônio público. OPA, PERAÍ. A Praça da Estação, que fica numa região central e por isso mesmo é eclética, recebendo pessoas de todos os lugares e classes, que sempre foi palco de eventos grandes e pequenos, que foi reformada justamente para receber o povo, vai ser fechada pra eventos públicos? Tá errado isso aí! E foi assim que a coisa começou.
 
praia da estação

Praia da Estação

Belo Horizonte é uma cidade muito cultural e as pessoas não iriam aceitar uma decisão arbitrária como essa. E foi assim que os organizadores culturais da cidade – juntamente com a população – se uniram para fazer uma manifestação, vai ter praça aberta sim! A cidade é nossa, não é do profeito, e por isso podemos nos reunir nos lugares públicos sim! Vamos aproveitar que lá tem umas fontes bem das boas, bora colocar a sunga e o biquini, levar o chapéu, a canga, os batuques e fazer a festa todo sábado!
 
A coisa foi se espalhando e a festa ficando cada vez mais numerosa. Se BH não tem mar, vamos matar o calor na Praia da Estação e fazer valer nossos direitos. A praça do povo, para o povo! O caráter de protesto nunca foi esquecido e o barulho foi tanto que poucos meses depois o prefeito tentou voltar atrás e disse que ia liberar a praça, desde que fosse pago uma taxa mínima de R$9000, valor que continua sendo inviável para pequenos produtores/eventos.

Em 2014, a prefeitura instituiu a Zona Cultural, um programa que altera as regras de ocupação cultural da praça da Estação, priorizando os produtores e artistas locais. Vitória do povo!

Então foi assim que surgiu o carnaval de BH. Uma manifestação cultural em tom de ironia, uma afronte pacífica a um decreto arbitrário, com muita folia. Se o agito já rolava na praça o ano inteiro, quando o carnaval chegou foi o trampulim que faltava. No primeiro ano a polícia agiu com repressão, chegando a levar foliões para a delegacia. No segundo ano o movimento foi um pouco maior e os bloquinhos já se espalhavam em bairros distintos. No terceiro ano a quantidade de pessoas que ficaram na cidade já foi um estrando e a partir daí chegamos em 2015, onde mais de 1 milhão de pessoas se reuniram atrás dos blocos, com muita animação e alegria.

Curiosidade: o bloco Baianas Ozadas foi o que mais levou pessoas às ruas. Mais de 100 mil pessoas acompanharam o trio elétrico em percusso que saiu da Praça da Liberdade e foi até a Praça da Estação.

 

Veja a programação completa do carnaval de rua de Belo Horizonte.

Vendo tamanho sucesso, ano passado a prefeitura – veja só, que ironia – começou a querer tirar proveito da festa, fechando parceria com uma cervejaria e criando camarotes com shows pagos, abadás e outras gracinhas, mas não teve muito sucesso. E esse ano novamente querem pegar uma fatia da festa, mas se depender do povo a festa será longe dos camarotes. A nossa festa é na rua, com bloquinhos regionais, muito batuque, muita catuaba barata e alegria. Longe dos preços exorbitantes de quem sempre quis repreender a alegria e hoje quer fazer parte da festa.

O gráfico abaixo mostra o crescimento do termo “carnaval em bh” no Google ao longo dos anos.

carnaval em bh termos de busca

Recomendo também este vídeo bastante esclarecedor sobre a Praia da Estação:

2 Replies to “Um breve resumo sobre como começou o carnaval de Belo Horizonte”

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